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Conto o Santo e também o milagre

  • Karla de Luna
  • 8 de jun. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 9 de jun. de 2022

Tudo no Velho Mundo remete aos anjos e santos, seja qual for a sua crença, é irresistível a atmosfera de fé, devoção e até mesmo surpresas. Você acredita?

Vou contar a primeira história da gata vira-lata, nem todas serão dela, mas de várias gatas vira-latas, identidades devem ser preservadas, neste conto o nome da gata será Daniela. Vamos dividir coisas boas...

Nada é mais forte que a força do seu pensamento e o universo conspirando com ele. E Dani pediu, com todas as suas forças, para esquecer uma pessoa e curar seu coração partido. Talvez ele nem soubesse dos danos, mas no seu íntimo, na calada da noite e na sua solidão, muitas vezes era inevitável chorar. Mas tudo bem... depois do pé na bunda (aos 30 anos, e ela se achava velha), uma mudança, literalmente.

Foram poucos os dias que passou sozinha em Barcelona depois do trabalho que conseguiu - longa história de como tudo aconteceu -, mas ela foi parar lá, e claro, sua prece atendida. Não, Dani não podia mais perder tempo choramingando, ele não para nem mesmo pra você lastimar a perda de um indivíduo, ainda mais sendo este um babaca que não te quer.

Mas nada como um verão europeu pra curar qualquer ferida. E assim a dela não foi só curada, mas cicatrizada, e feito uma plástica para nem mesmo lembrar que ela existiu.

Por coincidência, uma amiga estava de passagem pela cidade, bingo. Amiga, verão, praia, só poderia resultar em diversão. E lá foram elas, rumo a Portugal. Espaço para lamentação, jamais, mesmo tendo como hospedagem uma pensão fuleira, escondida numa viela estranha. Mas bastava andar um bocadinho que lá estava uma linda marina e um oceano todo para desfrutar. E as comidas? Não vou mencionar para que não fiquem com água na boca. Porém o Deus grego que apareceu naquela noite quente de Lagos não vou deixar passar, vocês que lutem pra conseguir um...

Moreno, alto, sorriso perfeito, ombros largos e aquele olhar, ao mesmo tempo doce e intenso. Mas como assim? Não foi pra Dani que ele estava olhando? Não, a sortuda foi Mariana, sua amiga. Conversas rolaram, e tudo foi tão rápido que quando se deu conta, tinham trocado de pares. O loirinho, alemão, que conversava com Dani, se encantou com Mariana e logo o morenaço sobrou pra ela. - Ele era pra você amiga, tudo a ver contigo, quando mencionei que estaria um tempo na Espanha, ele te olhou de um jeito, uau.

Claro que ela teve que contar isso depois.

Mas aquela noite foi longa, interminável, de bar em clube, ruelas, risadas, dançando e quando tudo mais já havia fechado e não havia sequer uma porta que pudessem bater, com todo respeito que Dani tinha aos templos sagrados e igrejas, lá estava ela atrás de uma delas.

Steve, realmente um grego, pois estava prestes a visitar sua família na Grécia, abraçava e segurava ela de um jeito como se não houvesse amanhã, acho que todo mundo merece braços como aqueles te apertando e colocando literalmente contra a parede, mesmo sendo essa a parede dos fundos de uma igreja. Detalhe, a de Santo Antônio, a quem Dani pediu um par, um amor, alguém especial, um namorado de verão, ou quem sabe até beijos quentes e intermináveis só por uma noite.

Por favor, não acaba, será que essa noite, ou melhor, essa pegação, pode continuar? Sim leitores, ela pode continuar - difícil detalhar como ou em que momento - mas bastava a vergonha para Santo Antônio. A essas alturas, onde estaria Mariana? Por incrível que pareça o nível de preocupação, desconfiança, ou qualquer coisa do tipo era praticamente zero e Dani precisava de alguém para lhe acompanhar até a bendita pensão. - Acho que não vai ter problema você entrar um pouquinho - disse bem baixinho pra Steve.

- Qualquer problema me escondo, pulo a janela, prometo ficar quietinho.

E realmente ficou, apagaram juntinhos numa cama de solteiro. Dani vagamente viu Mariana entrando no quarto para pegar um biquini dizendo que ia amanhecer na praia. - Você acha tudo isso uma loucura? O que pensa?

Ela até parecia indignada, ou assustada, talvez esperasse uma aprovação. E foi o que ela fez, mesmo sonolenta.

- Estamos do outro lado do oceano minha querida, vamos viver.

Se alguém tivesse que julgá-la que fosse Santo Antônio.

Naquele momento foi inspirada pela atitude de Mariana que apenas disse antes de bater a porta: - Vou quebrar minhas próprias regras e transar com ele na primeira noite.

- Não por isso amiga, o dia já vai amanhecer. Divirta-se!

E foi o que ela fez, aliás será que com os primeiros raios de sol poderia contar aquilo como segundo encontro? Afinal já tinham até dado uma dormidinha.

Pois é, diante do cenário ela não pode resistir. Aquele cara sem camisa, meio sonolento, sorrindo de leve, e totalmente na dele, respeitando seus limites. Mas ali, entrelaçada naquele corpo quente, beijos suaves arrepiando sua pele e todo universo em sintonia, quem se importa com limites. Mesmo porque sua prece para o Santo foi esquecer um amor, mas um brinde daqueles pra ajudar, Dani não podia ignorar.

Tudo tão de repente, tão gostoso, inusitado, muito suor na melanina, cabeça a mil, questionamentos, sexo sem sentimentos? Mas quem disse que não tinha? E como tinha! Desejo, liberdade e querer-se bem, afinal o prazer existe para nos deixar feliz.

Sendo assim, deixou que Steve lhe penetrasse (com camisinha, é claro), sem pudores, tabus, culpa. Se um dia tudo isso existiu na sua cabeça, elas foram libertas. E da melhor forma possível.

Suaram até suas peles grudarem, se exauriram até os corpos arquearem, a cama balançou, alguns raios de sol entravam no quarto, nem incomodava. Os beijos permaneciam, e as investidas, ora gentil, ora forte, fazia com que seu corpo queimasse, estremecesse e quisesse mais e pedisse mais. Um homem que faz uma mulher gozar primeiro, não deixa de ser um gentleman de alguma forma, é assim que deve ser, primeiro as damas. E mesmo sendo uma gata vira-lata, nunca deixaria de ser uma. Aí de quem dissesse o contrário.

Essa história não acabou assim, mas você leitor, terá que aguardar pra saber que fim levou. Posso adiantar que ela ultrapassou as paredes daquele quarto e foi além de Lagos. A prece foi atendida, ex esquecido e enterrado devidamente no passado. Olhar adiante, mesmo porque era o que importava. Amor não só se cura com outro amor, mas também com bom sexo.


História real de uma gata vira-lata.


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